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Archive for julho \30\UTC 2009

A morte da cachorra

Eu já fui mais tolerante

com esse tipo de

gente.

 

Eles entraram numa roda viva

ridícula

e acreditam realmente

que os alienados

somos nós.

 

Ando sentindo asco

na verdade.

 

Incrível,

enquanto eu escrevia isso, fui surpreendida

e agora

apresento

O ESPETÁCULO

 

A vida é dura

sabe que esse ano consegui ler 2 livros.

Eu amo ler

 

Desculpas, mas estou meio radical, não pense que é com você.

 

À alguns anos atrás, nessa época já tinha lido todos os mais vendidos

 

Mas esses lemas,

“a vida é dura”

são embutidos dentro da sua cabeça

vai de você

 

Eram cerca de 20, 30 livros, até o meio do ano.

 

conseguir sair disso.

Eu sei que pode parecer estranho e louco o que vou te dizer

mas depende de você, e só se você quiser.

 

Não menina

 

O sistema está manipulando de uma forma absurda

 

Não tem como

presta atenção.

 

Sim, eu já sei

você vai dizer que não.

 

Eu ia voltar pra minha casa

Só que aí, a Xuxa, que é a cachorrinha da minha mãe

que foi criada que nem filha

morreu

minha mãe quase morreu junto

lá em casa foi um luto desgraçado

todo mundo.

Estou na correria do casamento

cada dia uma coisa diferente.

Começo a pós-graduação agora no meio de agosto

domingo vou fazer curso de noivos

ontem fui ver igreja,

hoje vou ajudar minha irmã com a monografia

e por aí, vai indo, é um dia após o outro

e quando tenho tempo

só quero dormir.

 

Ah sim…nós mesmos escolhemos isso tudo, e então

ficamos sem tempo.

Não estou te criticando, não interprete assim.

Estou só observando mesmo.

 

Sim

eu sei Ana

mas e aí

como é?

eu não faço mais nada a partir de agora

e vou ler

então, abandono minha mãe

paro de estudar

largo meu namorado

porque casar ocupa tempo

 

não…não…

não

não disse isso.

 

Ana, essa história de que a sociedade impõe isso e aquilo é coisa de adolescente.

 

Risos e um aiai…

 

A vida não é fácil pra ninguém

ou você corre atrás ou perde o bonde.

 

Sério Maria…vou acabar escrevendo um texto sobre isso que você está me dizendo hein.

Não se assuste se for ler e encontrar um diálogo com você.

 

Escreve

Podemos até debater o assunto.

 

Sim…isso seria ótimo

mas você não vai ter tempo.

 

Mas a verdade é que a vida é dura Ana

e não espera nossas divagações sobre o ser ou não ser

resolver o que queremos

 

Ah, sim

esqueci

começo academia na segunda

serão três vezes por semana

na terça eu vou no salão

no sábado tenho pós-graduação,

sobrou a quinta-feira

por enquanto

e falta tempo, nós fazemos milhões de coisas

coisas importantes

 

Aiai

sim querida amiga.

Vai dar tudo certo.

Mas tenta relaxar

por favor

 

Estou super relaxada menina

Estou na correria

mas é tudo pra mim

academia pra eu emagrecer e ficar gostosa

casamento pra eu desencalhar e ser feliz pra sempre

pós-graduação pra eu não ficar burra

e por aí vai

 

Bom…que bom

Se você está feliz, é o que importa

e eu torço por você

de verdade.

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Chuva

Eu não sei realmente

quando

será possível falar sobre aquilo

sem dor

 

Porque apesar

de azuis

aqueles olhos

me lembram uma fase negra

fria e úmida

da vida.

 

Em um daqueles malditos dias

tudo aqui em volta

alagou.

Encheu dágua mesmo.

 

Mas eu sei,

que você não acredita no que eu estou falando.

 

Mas eu não minto.

 

Que absurdo

isso é mentira

você mente sim.

 

Mas não nesse caso.

Nesse caso

eu não mentiria.

 

Ficou tudo alagado

eu olhava lá de cima

e estava

ilhada.

Em todos os sentidos

que se possa imaginar.

 

Olha

foi horrível.

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Essa menina

ela não deve ter lido histórias em quadrinhos quando era criança.

 

Eu estava sozinha numa sala,

aquela

lá do fundo.

 

E ele entrou, e disse

“Muito bom esse chocolate quente. Me deu um pouco de sono.

É bem doce.”

 

É porque eu coloquei dois tipos de chocolate, amargo e ao leite, e um pouco de açúcar.

Mas isso é ótimo pras tardes de inverno, esquenta de verdade.

“Legal, obrigado mesmo” ele disse.

 

Então,

com uma expressão facial de incerteza,

de que eu era realmente louca

ele perguntou:

“Ei, você estava falando sozinha?”

 

Sim

eu estava.

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Previsíveis

Quando se aprende a ouvir

fica muito fácil perceber

como as pessoas

fingem

te escutar

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Tequila

Nesses dias que eu sinto explosões e

sinto o caos tomando conta de tudo

fica tudo

muito estranho

e tenso.

É como perder o controle de si mesmo

eu já não tenho muito controle normalmente

mas nesses dias

a impressão é outra

não tem floral que resolva

é um sair de mim

uma incorporação de outro

em mim

 

Cheguei a uma conclusão absurda sobre isso

um tipo de teoria

 

Nesses dias,

eu não preciso de vinho,

nem de um trago, pra me sentir entorpecida.

Basta,

o Sistema

basta

pra me enlouquecer,

o insuficiente.

É mais intenso do que qualquer outra droga

que eu conheço.

 

São situações do cotidiano,

como estar num lugar cheio de

gente

ou

ouvir um comentário

um infeliz de um comentário

aqueles

das pessoas do trabalho

que você deve ouvir também.

Eu sei que sim

todos nós ouvimos.

 

São aqueles que você está passando por um corredor e

sabe que estão fazendo

só que você tenta passar reto e rápido

pra ninguém te parar e vir contar pra você

também.

 

Sabe, eu escolhi aquela sala lá do fundo

onde ninguém me escuta

e eu não escuto ninguém.

 

Mas às vezes

eu tenho que buscar café

e aí

eles me param,

eles conseguem interceptar meu caminho

e fazem

aquela porcaria

daquele comentário

aquelas fofocas sobre inúmeras coisas

ameaçadoras

da paz

de todos eles.

 

É uma loucura isso

e eu sei que

pode parecer insanidade da minha parte

mas isso me entorpece

tanto quanto

um porre

de tequila

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todas as mulheres

todos os beijos delas as

formas variadas como amam e

falam e carecem

 

suas orelhas elas todas têm

orelhas e

gargantas e vestidos

e sapatos e

automóveis e ex-

maridos.

 

principalmente

as mulheres são muito

quentes elas me lembram a

torrada amanteigada com a manteiga

derretida

nela.

 

há uma aparência

no olho: elas foram

tomadas, foram

enganadas. não sei mesmo o que

fazer por

elas.

 

sou

um bom cozinheiro, um bom

ouvinte

mas nunca aprendi a

dançar – eu estava ocupado

com coisas maiores.

 

mas gostei das camas variadas

lá delas

fumar um cigarro

olhando pro teto. não fui nocivo nem

desonesto. só

um aprendiz.

 

sei que todas têm pés e cruzam

descalças pelo assoalho

enquanto observo suas tímidas bundas na

penumbra. sei que gostam de mim algumas até

me amam

mas eu amo só umas

poucas.

 

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;

outras falam mansamente da

infância e pais e

paisagens; algumas são quase

malucas mas nenhuma delas é

desprovida de sentido; algumas amam

bem, outra nem

tanto; as melhores no sexo nem sempre

são as melhores em

outras coisas; todas têm limites como eu tenho

limites e nos aprendemos

rapidamente.

 

todas as mulheres todas as

mulheres todos os

quartos de dormir

os tapetes as

fotos as

cortinas, tudo mais ou menos

como uma igreja só

raramente se ouve

uma risada.

 

essas orelhas esses

braços esses

cotovelos esses olhos

olhando, o afeto e a

carência me

sustentaram, me

sustentaram.

 

 

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De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
– vazio – de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

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